
O Núcleo, como sempre lhe chamávamos, foi sempre a menina dos olhos do Senhor Padre Luís Nunes Pereira de Faria, para nós o P. Luís de Faria, ou muito simplesmente o Senhor Padre Luís. Criou-se como escola de Homens de sã moral, dentro da mais vivida formação religiosa, na permanência da legenda latina «mensana in corpore sano». As instalações do Núcleo, nos dois andares no nº 60 da Rua de Vilar, estavam abertas diariamente, das vinte e uma à meia-noite, com mesa de bilhar e rádio para os mais velhos, duas mesas de pingue-pong (uma para os mais velhos e outra para os mais novos) e a sala da direcção, que funcionava como biblioteca, sala de ensaios de canto coral ou de teatro e, quando necessário, local de confissões (às vezes também era de «sermões» individuais, o que era raro, o que não excluía o seu puxão de orelhas quando necessário).
Mas o que esse bondoso sacerdote e homem de bem conseguiu criar foi um respeito moral pela vida e pela fraternidade que, ao fim de tantos anos, ainda subsiste entre os da velha guarda, e sempre renovado cada vez que nos encontramos.
Pode a vida ter diluído ou exacerbado a religiosidade de alguns, podem os interesses materiais ter afastado um ou outro, mas todos nos assumimos com o mesmo «ferro» indicador: somos do Núcleo! As gerações sucederam-se ao longo dos quase cinquenta anos que o P. Luís dirigiu o Núcleo, mas a camaradagem desse tempo, vivida em intermináveis partidas de ping-pong, nas cartas, no dominó, nas damas ou no futebol de mesa, essa nunca mais morreu.
Quanto ao futebol de mesa, nunca vimos mais nenhum…e no fundo, e em esquema de falta de meios da época, foi o directo antepassado dos actuais «subuteos» da actualidade. Um tabuleiro, de madeira, de uns cinquenta por vinte e cinco centímetros, com rebordos laterais mais elevados. A um centímetro dos bordos laterais uma fieira de pregos, com pequenos intervalos entre si, apenas com as aberturas das balizas no centro dos lados menores. Balizas essas construídas por ferro em U devidamente encordoadas.
No lugar dos jogadores e guarda-redes em campo, pregos de igual tamanho espetados na tábua, marcavam os lugares (era do tempo em que se jogava com cinco avançados—se quiserem o esquema é o mesmo dos actuais bilhares de matrecos). Jogava-se com uma esfera de aço a servir de bola e,. às vezes rematava-se a bola com auxilio de uma pá de madeira, tipo dos actuais suportes de gelados. Os jogos eram renhidamente disputados e só paravam quando a bola ultrapassava as paredes do «Estádio» ou entrava golo. Mas aí era bola ao centro e todos outra vez ao ataque.
Na Missa Dominical, às dez horas da manhã, era ver a atenção e, porque não, a fé que transparecia dos rostos desses diabretes, enquadrados pelos mais velhos, desses «índios» que eram capazes de pôr a cabeça em água às freirinhas e aos policias, mas eram capazes também de viver a Missa de olhar pregado naquele Homem, que conseguia congregar em si toda aquela juventude.
Heróis desse jogo memorável!... Aqui não resisto a contar uma das muitas historias, relacionadas com o futebol. Em 1971, o presidente do Núcleo, era o António Aguiar, que durante muitos anos comandou os destinos da instituição. Não consigo lembrar-me dos pormenores que o levaram a abandonar as suas funções, lembro-me sim, de o Senhor Padre Miguel, convidar-me para fazer parte de uma nova direcção constituída também com o Rui Ferreira com o cargo de tesoureiro, do Leandro a vogal, eu a secretário, e o senhor Paulino como presidente, visto ser mais velho e de bom relacionamento com o Senhor Padre Miguel, e por esse motivo mais respeitado, mas sem a necessidade de estar presente todos os dias. Passados poucos dias, sou abordado pelo António Aguiar, então dissidente e que entretanto criara um clube na rua com o pomposo nome de Juventus de Vilar!,para um desafio de futebol contra o Núcleo. Claro que aceitei o repto, mas dizendo-lhe que iria falar com o Senhor Padre Miguel. Posto ao corrente da conversa tida, e que estaria uma taça em disputa a pagar a meias, o Senhor Padre Miguel não pôs entrave algum, e até sugeriu que a essa taça se desse o nome de «taça amizade».
Secretário do Núcleo em 1971Mas para nós, seria imperdoável esquecer o Homem e a Obra que ao longo de décadas nos uniu: o Núcleo do Sagrado Coração de Jesus.












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